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São exactamente as nossas raizes culturais, familiares e sociais que nos distinguem.




sábado, 1 de dezembro de 2012

AO CALOR DA FOGUEIRA



Com este frio, agora que a neve começou a cair á volta das nossas aldeias aqui bem perto da serra da estrela, é bom recordar as conversas do ti Ambrósio com o Carlos  ao calor da fogueira, e quem sabe se não haverá tambem uns figuinhos secos e uma directa do alambique para se deliciarem...
Ora vejam uma história que li no AMIGO DO POVO entre estas duas ilustres personagens, a qual embora já antiga continua a sentir se os mesmos efeitos hoje  mesmo


Que novidades correm por aí, Carlos ? Está tudo velho, Tio Ambrósio! Hoje em dia as coisas passam tão depressa que um acontecimento com uma semana parece-nos Ter já meses ou anos. Estamos todos os dias à espera que aconteça alguma coisa de novo para termos assunto para as nossas conversas.

- Ainda bem que isso acontece, pelo menos em relação a alguns políticos da nossa praça. Mesmo que tenham feito asneira de monta, passadas umas semanas, aparecem sorridentes em frente do povo como se nada tivesse acontecido.

- 0 Tio Ambrósio não está a pensar em ninguém em particular ou, pelo menos, não está a pensar na mesma pessoa que eu...

- Possivelmente não, Carlos! Eu não costumo alinhar com aqueles que criticam a torto e a direito, sem se recordarem que governar um país não é tarefa fácil. Alguns dos críticos, de resto, não têm nenhuma autoridade para falarem, pois acontece que, muitos deles, se formos a ver bem as coisas, são ainda piores que os que eles criticam.

- Como assim, Tio Ambrósio?

- Quem não é capaz de governar a sua própria casa como pode atirar pedras aos telhados dos outros? Quando nós vemos tantas famílias endividadas, como tu próprio me tens referido vezes sem conta, como nos havemos de admirar que os que gerem os dinheiros públicos cometam erros, alguns deles de gravidade irreparável?

- 0 Tio Ambrósio ainda se está a referir ao negócio ruinoso que uni ex-ministro levou a cabo com uma companhia de transportes aéreos da Suíça, que se saldou na perda de várias dezenas de milhões de contos?

- Onde isso vai, Carlos! Não acabaste de me dizer que os acontecimentos de hoje passam quase tão depressa como o vento? Depois dessa já muitas outras vieram e se foram. E outras estarão para vir, que nisto de administrar o que é de todos os erros vão-se repetindo, não se vislumbrando qualquer propósito da emenda.

- Quer o Tio Ambrósio dizer que isto em vez de ser um governo é um desgoverno?

-Até já alguns ministros chegaram a essa conclusão. Ainda há dias, em Fátima, a titular da pasta da Saúde, em resposta a pedidos de colaboração de algumas instituições particulares de solidariedade social, foi peremptória em afirmar que essa ajuda é impossível pelo facto do seu ministério ter calotes que já somam mais de trezentos milhões de contos. Só às farmácias (que são um negócio chorudo, embora os respectivos proprietários se queixem a toda a hora) deve o Estado mais de cem milhões de contos. É obra!

Pois a saúde em Portugal está como se vê, Tio Ambrósio! E com essas dividas todas não devemos esperar que as coisas mudem, pelo menos nestes tempos mais chegados. Havemos de continuar a ter listas de espera para as operações às cataratas; havemos de continuar a ir
para as bichas dos centros de saúde às quatro e cinco da manhã para conseguirmos uma consulta às onze ou ao meio-dia, ou para, a essa hora, ouvirmos dizer à empregada de serviço que tenhamos paciência, mas temos de voltar no dia seguinte, havemos de continuar a importar médicos e enfermeiros de Espanha, porque os nossos fogem das vilas e aldeias do interior como * diabo foge da cruz...
- Isso é que é um relatório, Carlos!

- Ainda o Tio Ambrósio me interrompeu * menos de metade da procissão!

- Foi para te não cansares, Carlos! Como dizia o ex-Presidente Soares, o nosso povo tem o direito de se indignar..

- Valha-nos essa liberdade, Tio Ambrósio! Doutro modo, sem esse direito à indignação, como é que nós havíamos de proceder perante o facto de se gastarem dezenas de milhões de contos na construção ou melhoramentos de estádios de futebol, quando aqui para o Cabeço temos uma estrada que mais parece um campo minado em Angola?

- Pois a verdade é que, para isso, não vão faltar verbas, Carlos! Verbas cada vez maiores! Eu não sei se tu viste nos jornais que os custos da remodelação do Estádio Municipal de Coimbra, orçados inicialmente em três milhões de contos, sobem agora para a módica quantia de oito milhões.

- Não se indigne, Tio Ambrósio! Se precisar de ir a uma consulta e não houver médico, não se indigne, Tio Ambrósio!

- E de que valeria indignar-me, Carlos?

- Na prática, absolutamente de nada. 1

A indignação dos pobres não passa de um divertimento para os poderosos. Convença-se dessa, Tio Ambrósio!

- Como dizia uma velho filósofo, contra factos não há argumentos!


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