quarta-feira, 12 de março de 2008

Cidade património mundial explica como melhor preservar uma Aldeia do Xisto

Caros Boguenses, aproveito para publicar esta noticia do DIARIO XXI por me parecer ter algum interesse para as gentes da nossa Freguesia, Bogas, Maxial, Ladeira e Urgeiro ja que estas aldeias teem muito a ver com este projecto. São aldeias com lindas casas em Xisto como aliás se pode comprovar através de fotos inseridas neste blogue
DIARIO XXI
Quarta-Feira, 12 de Março de 2008

Artesãos noruegueses formam portugueses

A troca de experiências insere-se no programa de recuperação de casas das Aldeias do Xisto, a que os proprietários vão poder candidatar os seus imóveis, até 2010
Francisco Cardona

Se quisermos simplificar, podemos dizer que os quatro formadores noruegueses estão em Janeiro de Cima para modificar a forma de pensar, mais do que para ensinar a fazer a verdadeira recuperação e manutenção das casas de xisto. “Ensinamos mais um modo de pensar do que propriamente uma maneira de fazer”, disse ao Diário XXI, Olaf Piersky, carpinteiro norueguês. “Queremos que eles se sintam confortáveis com a forma de pensar, porque executar é fácil e eles sabem-no fazer bem”, acrescentou o chefe da equipa que está a promover uma oficina de recuperação de edifícios em xisto.
Os formadores são pedreiros e carpinteiros oriundos do Museu de Roros, povoação mineira localizada na Noruega, classificada como Património da Humanidade pela UNESCO. Entre 25 de Fevereiro e 15 de Março, os quatro formadores estão a transferir os conhecimentos adquiridos ao longo dos últimos 15 anos, de acordo com a filosofia de preservação do património implementada em Roros.

PROGRAMA ATÉ 2010 FINANCIA RECUPERAÇÃO DE CASAS
Os quatro formadores noruegueses ensinam seis formandos, todos eles carpinteiros e pedreiros, que por sua vez vão ser formadores de outras pessoas que vão participar na recuperação financiada de 80 casas das Aldeias do Xisto, até 2010. A parceria com o Museu de Roros é financiada com um 1,4 milhões de euros pelo Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu (EEA Grants), do qual Portugal é beneficiário. Municípios e proprietários dos imóveis vão poder candidatá-los ao restauro.
O programa financia a recuperação de portas e janelas, telhados e fachadas. Segundo Maria Baptista, até aqui “não havia conhecimento de como reparar e quais são as condições mínimas para se fazer uma reparação que garanta a sustentabilidade do património. Estamos agora a entrar nessa fase”, conclui.

Requalificar sem materiais novos
Um benefício para a economia local
“A minúcia do trabalho encarece a mão-de-obra, mas o património sai muito valorizado”, sublinha Olaf Piersky. “Como vamos ao cerne da questão fica um pouco mais caro, porque não é a mesmo que comprar uma porta ou fazê-la nova”, disse o carpinteiro, dispensando em absoluto as peças industriais. “Em vez de se introduzirem peças industriais, introduz-se o material original. Custa mais dinheiro, mas isso enriquece as casas e cria emprego em regiões deprimidas, onde há muito trabalho de recuperação para fazer”.

Olaf Piersky, formador
“Eles sabem bem como fazer. É só ensinar a metodologia”
Olaf Piersky prepara-se para ensinar os formandos a recuperar uma velha porta resgatada em Proença-a-Nova e que será aplicada numa casa seleccionada para a receber. “Cada objecto [porta, janela ou pedra] dá o mote para cada reparação”, começa por explicar Olaf, acrescentando que os artesão devem tentar manter o máximo possível do material original. “À medida que o trabalho se desenvolve decidimos até onde vamos e o que mantemos de cada objecto”, acrescenta, sublinhando que o segredo está na simplicidade das intervenções. “Não é um trabalho difícil, especialmente quando estamos a ensinar artesãos com experiência. Eles sabem bem como fazer. É só ensinar a metodologia que deve ser seguida”, refere este carpinteiro que chefia a equipa de quatro noruegueses.

Carlos Meneses 36 anos, Arganil
“É um trabalho mais moroso mas também mais rico”
Uma velha porta foi resgatada de uma casa no concelho de Proença-a-Nova e vai ter vida nova em Janeiro de Cima, no concelho do Fundão onde decorre a oficina sobre a recuperação de casa de xisto. Carlos Meneses é carpinteiro, em Arganil, e frequenta a acção. De acordo com as técnicas ministradas pelos noruegueses, “o aspecto da porta vai manter-se depois de arranjada”. Apesar de se encontrar deteriorada, “especialmente no fundo, onde já falta madeira”, Carlos Meneses adianta que o trabalho de recuperação “consiste em desfiar a porta na parte que está estragada e juntar outros pedaços de madeira, preservando o máximo possível da porta inicial”. “Se fizéssemos este trabalho sem a ajuda deles, cortaríamos a parte que está deteriorada e a porta ficaria por metade”, explica Carlos Meneses. “Neste caso vamos manter
o aspecto e a dimensão” acrescenta o carpinteiro.

VISÃO CRÍTICA DO QUE TEM SIDO FEITO
“É um trabalho mais moroso mas também mais rico do ponto de vista patrimonial”, refere o formando sem esconder uma visão crítica das intervenções feitas nas casas de xisto ao longo dos anos. “O que tem sido feito nas casas de xisto inclui material novo, não houve recuperação”, afirma Carlos Menezes, concluindo que, apesar das casas serem antigas, “o material usado para o restauro era material novo, não houve cuidado para manter o que foi encontrado”, concluiu.

Augusto Pinheiro, 54 anos, Janeiro de Cima
“Nada foi feito como estamos agora a aprender”
Augusto Pinheiro, 54 anos, vive em Janeiro de Cima e é um dos formandos da oficina liderada pelos noruegueses. Mais de metade da vida passou-a em França, a trabalhar na recuperação de monumentos históricos. No regresso a Janeiro de Cima, este pedreiro manteve a actividade. Nos últimos cinco anos, Augusto Pinheiro tem muitas centenas de horas de trabalho gastas no restauro de casas de xisto. “Há cinco anos que aqui fazemos restauro de habitações, mas nada foi feito da forma que estamos agora a aprender”, diz o pedreiro, enquanto trabalha na recuperação da parede que resta de uma velha habitação. “É aqui que treinamos as técnicas que eles nos ensinam”, afirma Augusto Pinheiro, apontando para os noruegueses. “Eu sempre trabalhei nisto, estive na França 33 anos e não fiz outra coisa”, explica. “Sempre trabalhei na recuperação de monumentos históricos, mas lá a pedra não é igual. Porém, o trabalho é parecido”. “Aqui não nos permitem usar cimento, mas nas intervenções que temos feito metemos cimento e um bocado de barro. O que vê é a cor do barro, mas tem cimento por dentro”, afirma Augusto Pinheiro, visivelmente satisfeito com a experiência e esperançado que a aprendizagem possa trazer resultados práticos nas futuras intervenções. “Se os proprietários das casas quiserem intervenções deste género, já há quem as saiba fazer. Pode ser mais demorado e um pouco mais caro, mas o património histórico sai valorizado”, conclui.

Maria Baptista, coordenadora do projecto
“Um passo em frente”
- É a primeira vez que ocorre esta troca de experiências?
- Esta é a primeira experiência que se faz em que uma cidade património mundial vem ensinar princípios básicos utilizados para a preservação do património da humanidade, em aldeias mais ou menos perdidas na paisagem. E é bom porque a preservação do património da humanidade não deve ser feita apenas nas cidades património mundial. Essas cidades devem ser capazes de extrair lições que devem ser ensinadas ao mundo.
- As intervenções feitas nas casas, nomeadamente aqui em Janeiro de Cima, deixam muito a desejar do seu ponto de vista?
- Não diria isso. Tem havido sobretudo um modelo de reabilitação. Enquanto reabilitação não é criticável. Agora entramos numa nova fase. É um passo em frente que não foi possível dar quando as reabilitações começaram.

DESTAQUE:
Segundo Olaf Piersky, esta é a primeira experiência de exportação das técnicas usadas em Museu de Roros, na Noruega